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Casas modestíssimas, de pau a pique, cobertas de capim, comprometidas pela corrupção do salitre, a emparceirarem com as cubatas gentílicas; vegetação espinhosa e salgada, em redor de pântanos multiplicados pela natureza alagadiça dos terrenos; falta de recursos e de higiene e do conhecimento das origens nefastas do paludismo(malária); calor húmido e sufocante da quadra chuvosa, agravado pelo frio do cacimbo, fazendo contrastes violentos para os enfezados pela malignidade do clima; a nota verde e impenetrável do Cavaco, em pano de fundo, ninho de feras que vinham, à noite, ao povoado, remexer os detritos e desenterrar os corpos despachados, ao acaso, para a escuridão da terra-mater; - eis no que consistiam as bases morais e materiais da vida inicial da sede do governo geral do reino de Benguela...
(...)
Foi com 130 homens - europeus e africanos - que se fundou a cidade de Benguela; mas, poucas semanas depois da fundação, o frio e o paludismo dizimaram uma grande parte deles, e a população compunha-se de 90 varões, dos quais "seis casados com molheres e filhos e oitenta negros". Destes, 60 eram cativos de Manuel Cerveira Pereira.
(...)
O Senado Municipal de Benguela, cuja criação recebeu o consentimento régio em 1770, foi fundado no ano seguinte. Em Agosto de 1772 entrou em funcionamento em termos normais: "Com a criação deste melhoramento público, a cidade de S. Filipe alcançava uma prerrogativa das mais valiosas, conquistando a importância que lhe fora negada durante século e meio. (...)
Os portugueses foram inicialmente
atraídos pelo cobre existente na região. Porém, rapidamente se decepcionaram
com a sua má qualidade. A partir daí, Benguela tornou-se um centro
essencialmente comercial.
Benguela tornou-se o segundo centro
comercial mais importante do país, depois de Luanda. Era o ponto de partida e
chegada das caravanas de permuta. Assim, rapidamente se formaram à sua volta
centros de população. A construção do caminho de ferro de Benguela (CFB),
levada a cabo pelos ingleses, no início do séc. XX, transformou Benguela no
motor do desenvolvimento da região centro-sul do país.
Em consequência, surgem cidades no interior do centro de Angola e Benguela é, assim, chamada de Cidade Mãe de Cidades... A cidade tinha à sua volta inúmeros pântanos e lagoas, infestados de mosquitos, de tal ordem que chegou a ser chamada de "cemitério dos brancos". Porém, como foi sempre sua tónica, a carolice dos da terra falou mais alto: o médico João Ornelas tomou nas suas mãos a grande tarefa de eliminar esse foco de doenças e, aos poucos, os pântanos foram desaparecendo. E o epíteto negativo ficou na história... A queda internacional da cotação do sisal mudou o rumo económico de Benguela, que fez da pesca a sua actividade central. A costa de Benguela era uma verdadeira mina e de Portugal chegaram os homens do mar. Os lucros eram grandes e a cidade crescia. O plano de urbanização da cidade entrou em vigor em 1948. Surgem assim bairros novos a uma cadência invejável para outras cidades, todos eles, porém, devidamente estruturados, beneficiando de arruamentos asfaltados em curto espaço de tempo, bem como de redes de esgotos e pronta ligação de água e luz. Também o centro de Benguela, embora preservando o que belo ali existe, como testemunho de épocas e estilos passados, modificou aos poucos a fisionomia, de forma a acompanhar o ritmo do progresso. Construíram-se prédios de numerosos andares, criaram-se novos espaços verdes, parques infantis, alargaram-se ruas, romperam-se avenidas, melhorou-se o piso das faixas rodoviárias, alindaram-se os numerosos jardins dispersos por todo o perímetro urbano. O sentimento bairrista das gentes de Benguela foi sempre revelado nas mais diversas circunstâncias. É desse modo que é em Benguela que se dá o pontapé de partida para a radiodifusão em Angola: o Rádio Clube de Benguela é fundado a 18 de Maio de 1939. Nesse mesmo ano é também fundado o Aero Clube de Benguela. Foi graças aos donativos da sua população que se construiu o aeroporto Venâncio Deslandes, mais conhecido por Dakota; da mesma forma, o seu autódromo tornou-se realidade porque os seus habitantes assim o decidiram e para isso contribuiram... Mas se, por um lado, essa carolice possibilitava oferecer à cidade facilidades que eram necessárias, a sua firme consciência política trouxe-lhe muitos dissabores: foi considerada, durante muitos anos, como sendo "do contra" e a consequência inevitável foi não serem para ali canalizadas verbas que indubitavelmente ajudariam a melhorar as mais diversas estruturas da cidade. A cidade é até hoje um dos mais fortes centros culturais angolanos, não só por ser berço de uma certa intelectualidade angolana, mas também porque os benguelenses são em si acérrimos defensores do seu espaço. É tida como uma das províncias mais mestiças de Angola, quer do ponto de vista racial como do cultural. Benguela é também conhecida pela cidade das Acácias Rubras, pelas inúmeras acácias vermelhas que existem, espalhadas por toda a cidade. Nas ruas ladeadas por estas árvores transita-se sob autênticos túneis de flores vermelhas. Quando as flores começam a cair, o chão é também um belo tapete rubro... Alda Lara, a poetisa benguelense, a elas se refere repetidamente. Porém, é importante que se ressalte também a sua tomada de consciência, o seu amor pela terra Angola, pela terra Benguela:
Entre as suas belezas naturais destacam-se as praias: a Morena, na cidade de Benguela, a de Stº António, a Baía Azul, a Caota e Caotinha, a Baía Farta (também importante centro piscatório), as Pedras do Sombreiro. Mas devemos também mencionar alguns edifícios antigos: a Igreja Matriz de N.S. do Pópulo, que data de 1748 e está intimamente ligada à Inconfidência Mineira porquanto foi ali que foi sepultado o companheiro de Tiradentes, Francisco José Ribeiro, trasladado para Ouro Preto em meados do séc. XX, assim como os seus companheiros de degredo, o sargento-mor Luiz Vaz de Toledo Pisa (Cambambe), Dr. Inácio José de Alvarenga Peixoto (Ambaca), o tenente-coronel Domingos de Abreu Vieira (Muxima), o tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrade (Encoje), e, finalmente, Francisco António de Oliveira Lopes (Bié); a Associação Comercial de Benguela (prédio vulgarmente conhecido por "Palácio das Bolas", pelos arremates em forma de esfera no seu telhado), fundada a 18 de Julho de 1906, tendo sido Norton de Matos quem colocou a primeira pedra para a sua construção; a construção em estilo colonial a que todos chamam Cabo Submarino e que foi construída quando da instalação do cabo submarino, no início da década de '40 ?.
Não
nos esqueçamos da cidade vizinha, o Lobito. A
"sala-de-visitas de Angola", o porto por onde se escoa tudo quanto
vem do interior da região centro de Angola... o cobre do Katanga, da República
Democrática do Congo... A cidade bonita, vaidosa da sua beleza, que tem com o
mar uma relação muito íntima. A sua profunda e estreita baía, em forma de
ferradura, empresta-lhe um encanto especial. Muito se poderia dizer sobre esta
cidade, mas os postais ilustram mais do mil palavras o motivo por que todos os
naturais e residentes são tão orgulhosos da sua cidade.
Entre estas duas principais cidades da Província de Benguela, encontra-se a Vila da Catumbela. Fundada em 1835, no reinado de D. Maria II, banha-a o rio com o mesmo nome. Encantadora na sua simplicidade, porém guardando belas construções antigas.
Aproximadamente 30 anos após a sua fundação, surgiram as
primeiras fazendas que lhe proporcionaram desenvolvimento, com a consequente
prosperidade. Primeiro cultivou-se o algodão, posteriormente a cana-de-açúcar.
Destacamos a Fazenda do Cassequel, importante fabricante de açúcar.
Dados extraídos do livro de Ralph Delgado, "O Reino de Benguela", 1941, bem como de outras fontes.
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