Benguela


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Esta página foi feita em parceria com a Aida Maria Saiago, natural da cidade e que me enviou o texto e  fotos.

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Museu e Jardim em Benguela

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Palácio do Governo

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Monumento a Manuel Cerveira Pereira, junto à Praia Morena, e atrás o Palácio do Governo.

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Palácio do Comércio 

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Cidade de flores

Mapa da Província de Benguela

Benguela 

Cidade fêmea,

Cidade mãe de Cidades,

espraiando-se nas praças

cores e cheiros

de mares e jardins

praças e canteiros...

acácias rubras 

casuarinas e palmeiras...

Conheci-te, menino

adolescente me apaixonei!

A guerra nos separou

na Internet te reencontrei!

Muhuila

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Cabos-Casa dos Americanos da cia. de cabos submarinos

Um pouco de história...

 
Apesar de haver informações antigas que consideram as regiões ao sul do Cuanza pertencentes ao reino de Angola - umas estendendo-as até à Baía das Vacas e outras até ao Cabo Negro - a verdade é que o reino de Benguela se apresenta ao nosso conhecimento, também de datas remotas, com origem na margem esquerda daquele importante rio.
(...)

Foi em 1578 que se deu a fixação portuguesa em Benguela-a-Velha, marcando, assim, o início da exploração do Sul de Angola.
Manuel Cerveira Pereira fundeou na Baía de Santo António no dia 17 de Maio de 1617, sendo esta data considerada como sendo a da fundação da cidade de S. Filipe de Benguela.
A meio da enseada de S. António, a cidade tinha assento, segundo Battel, na província do Dombe da Quizamba, e, segundo Cadornega, na província dos Quimbundos, com a qual confinava a dos Sumbis e, no interior, a de Gembe, a que outros chamavam Quilengues, povoada de "quilombos de jagas".

Nos primeiros anos, Benguela foi, evidentemente, um esboço de povoação, uma espécie de arraial, rodeada por terrenos calcinados e por vegetação típica, que os horrores do clima vestiam de luto e dor.

benguela_populo.jpg (19905 bytes)Igreja do Pópulo
Igreja da Muxima-Benguela.jpg (21553 bytes)Igreja
PORTAV~1.jpg (15602 bytes)Porta Aviões em 2001.gif (67444 bytes)

Porta aviões Restaurante

Casas modestíssimas, de pau a pique, cobertas de capim, comprometidas pela corrupção do salitre, a emparceirarem com as cubatas gentílicas; vegetação espinhosa e salgada, em redor de pântanos multiplicados pela natureza alagadiça dos terrenos; falta de recursos e de higiene e do conhecimento das origens nefastas do paludismo(malária); calor húmido e sufocante da quadra chuvosa, agravado pelo frio do cacimbo, fazendo contrastes violentos para os enfezados pela malignidade do clima; a nota verde e impenetrável do Cavaco, em pano de fundo, ninho de feras que vinham, à noite, ao povoado, remexer os detritos e desenterrar os corpos despachados, ao acaso, para a escuridão da terra-mater; - eis no que consistiam as bases morais e materiais da vida inicial da sede do governo geral do reino de Benguela...

(...)

Foi com 130 homens - europeus e africanos - que se fundou a cidade de Benguela; mas, poucas semanas depois da fundação, o frio e o paludismo dizimaram uma grande parte deles, e a população compunha-se de 90 varões, dos quais "seis casados com molheres e filhos e oitenta negros". Destes, 60 eram cativos de Manuel Cerveira Pereira.

(...)

O Senado Municipal de Benguela, cuja criação recebeu o consentimento régio em 1770, foi fundado no ano seguinte. Em Agosto de 1772 entrou em funcionamento em termos normais: "Com a criação deste melhoramento público, a cidade de S. Filipe alcançava uma prerrogativa das mais valiosas, conquistando a importância que lhe fora negada durante século e meio.

(...)

Os portugueses foram inicialmente atraídos pelo cobre existente na região. Porém, rapidamente se decepcionaram com a sua má qualidade. A partir daí, Benguela tornou-se um centro essencialmente comercial.
Para isso contribuíram a produção de peixe seco e sal que eram permutados com produtos do planalto: cereais, cera, borracha, rícino, mandioca, sisal, gado e marfim... E, obviamente, a escravatura.

Benguela tornou-se o segundo centro comercial mais importante do país, depois de Luanda. Era o ponto de partida e chegada das caravanas de permuta. Assim, rapidamente se formaram à sua volta centros de população. A construção do caminho de ferro de Benguela (CFB), levada a cabo pelos ingleses, no início do séc. XX, transformou Benguela no motor do desenvolvimento da região centro-sul do país.

Em consequência, surgem cidades no interior do centro de Angola e Benguela é, assim, chamada de Cidade Mãe de Cidades...

A cidade tinha à sua volta inúmeros pântanos e lagoas, infestados de mosquitos, de tal ordem que chegou a ser chamada de "cemitério dos brancos". Porém, como foi sempre sua tónica, a carolice dos da terra falou mais alto: o médico João Ornelas tomou nas suas mãos a grande tarefa de eliminar esse foco de doenças e, aos poucos, os pântanos foram desaparecendo. E o epíteto negativo ficou na história...

A queda internacional da cotação do sisal mudou o rumo económico de Benguela, que fez da pesca a sua actividade central. A costa de Benguela era uma verdadeira mina e de Portugal chegaram os homens do mar. Os lucros eram grandes e a cidade crescia. O plano de urbanização da cidade entrou em vigor em 1948.

Surgem assim bairros novos a uma cadência invejável para outras cidades, todos eles, porém, devidamente estruturados, beneficiando de arruamentos asfaltados em curto espaço de tempo, bem como de redes de esgotos e pronta ligação de água e luz.

Também o centro de Benguela, embora preservando o que belo ali existe, como testemunho de épocas e estilos passados, modificou aos poucos a fisionomia, de forma a acompanhar o ritmo do progresso. Construíram-se prédios de  numerosos andares, criaram-se novos espaços verdes, parques infantis, alargaram-se ruas, romperam-se avenidas, melhorou-se o piso das faixas rodoviárias, alindaram-se os numerosos jardins dispersos por todo o perímetro urbano.

O sentimento bairrista das gentes de Benguela foi sempre revelado nas mais diversas circunstâncias. É desse modo que é em Benguela que se dá o pontapé de partida para a radiodifusão em Angola: o Rádio Clube de Benguela é fundado a 18 de Maio de 1939. Nesse mesmo ano é também fundado o Aero Clube de Benguela. Foi graças aos donativos da sua população que se construiu o aeroporto Venâncio Deslandes, mais conhecido por Dakota; da mesma forma, o seu autódromo tornou-se realidade porque os seus habitantes assim o decidiram e para isso contribuiram...

Mas se, por um lado, essa carolice possibilitava oferecer à cidade facilidades que eram necessárias, a sua firme consciência política trouxe-lhe muitos dissabores: foi considerada, durante muitos anos, como sendo "do contra" e a consequência inevitável foi não serem para ali canalizadas verbas que indubitavelmente ajudariam a melhorar as mais diversas estruturas da cidade.

A cidade é até hoje um dos mais fortes centros culturais angolanos, não só por ser berço de uma certa intelectualidade angolana, mas também porque os benguelenses são em si acérrimos defensores do seu espaço. É tida como uma das províncias mais mestiças de Angola, quer do ponto de vista racial como do cultural.

Benguela é também conhecida pela cidade das Acácias Rubras, pelas inúmeras acácias vermelhas que existem, espalhadas por toda a cidade. Nas ruas ladeadas por estas árvores transita-se sob autênticos túneis de flores vermelhas. Quando as flores começam a cair, o chão é também um belo tapete rubro...

Alda Lara, a poetisa benguelense, a elas se refere repetidamente. Porém, é importante que se ressalte também a sua tomada de consciência, o seu amor pela terra Angola, pela terra Benguela:
Miserere

Perdoai-me, Senhor!
Perdoai-me, que eu não sabia...

No meu palácio
batido por todos os mares de coral,
encastoada em espumas,
e rendas,
e ouropéis,
coberta de cetins e de anéis
no meu palácio de ilusão
onde cantam sereias pela noite dentro,
Senhor!
eu não sabia nada...

Foi preciso que o céu se cobrisse
de nuvens negras,
e a tempestade sacudisse
a solidão dos meus salões,
para que eu, transida de medo,
descesse aos subterrâneos do meu palácio,
em busca de projeção
e calor...

E nos subterrâneos...
só encontrei dor maior que a minha...
medo maior que o meu...
e loucura,
e suor,
e fome,
e ódio frio,
e revolta surda,
e o cheiro putrefacto dos corpos
que trouxe a maresia...

Ah! perdoai-me Senhor!
Perdoai-me...
que eu não sabia.

1949 - Março
Rumo
(ao J.B. Dias em 1949,
à sua memória em 1951)

É tempo companheiro!
Caminhemos...
Longe, a Terra chama por nós,
e ninguém resiste à voz
da Terra!...

Nela.
o mesmo sol ardente nos queimou
a mesma lua triste nos acariciou,
e se tu és negro,
e eu sou branca,
a mesma Terra nos gerou!

Vamos companheiro!
É tempo...
Que o meu coração
se abra à mágoa das tuas mágoas
e em prazer dos teus prazeres
irmão:
que as minhas mãos brancas
se estendam
para estreitar com amor
as tuas longas mãos negras...
E o meu suor,
quando rasgarmos os trilhos
de um mundo melhor.

Vamos!
que outro aceno nos inflama...
Ouves?
É a Terra que nos chama...

E é tempo companheiro!
Caminhemos...





Regresso

(...)

Sim! Eu hei-de voltar,
tenho de voltar,
não há nada que mo impeça.
Com que prazer
hei-de esquecer
toda esta luta insana...
que em frente está a terra angolana,
a prometer o mundo
a quem regressa...

Ah! quando eu voltar...
Hão-de as acácias rubras,
a sangrar
numa verbena sem fim,
florir só para mim!...
E o sol esplendoroso e quente,
o sol ardente,
ha-de gritar na apoteose do poente,
o meu prazer sem lei...
A minha alegria enorme de poder
enfim dizer:
Voltei!...


1948













Entre as suas belezas naturais destacam-se as praias: a Morena, na cidade de Benguela, a de Stº António, a Baía Azul, a Caota e Caotinha, a Baía Farta (também importante centro piscatório), as Pedras do Sombreiro.

Mas devemos também mencionar alguns edifícios antigos: a Igreja Matriz de N.S. do Pópulo, que data de 1748 e está intimamente ligada à Inconfidência Mineira porquanto foi ali que foi sepultado o companheiro de Tiradentes, Francisco José Ribeiro, trasladado para Ouro Preto em meados do séc. XX, assim como os seus companheiros de degredo, o sargento-mor Luiz Vaz de Toledo Pisa (Cambambe), Dr. Inácio José de Alvarenga Peixoto (Ambaca), o tenente-coronel Domingos de Abreu Vieira (Muxima), o tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrade (Encoje), e, finalmente, Francisco António de Oliveira Lopes (Bié);   a Associação Comercial de Benguela (prédio vulgarmente conhecido por "Palácio das Bolas", pelos arremates em forma de esfera no seu telhado), fundada a 18 de Julho de 1906, tendo sido Norton de Matos quem colocou a primeira pedra para a sua construção; a construção em estilo colonial a que todos chamam Cabo Submarino e que foi construída quando da instalação do cabo submarino, no início da década de '40 ?.

Não nos esqueçamos da cidade vizinha, o Lobito. A "sala-de-visitas de Angola", o porto por onde se escoa tudo quanto vem do interior da região centro de Angola... o cobre do Katanga, da República Democrática do Congo... A cidade bonita, vaidosa da sua beleza, que tem com o mar uma relação muito íntima. A sua profunda e estreita baía, em forma de ferradura, empresta-lhe um encanto especial. Muito se poderia dizer sobre esta cidade, mas os postais ilustram mais do mil palavras o motivo por que todos os naturais e residentes são tão orgulhosos da sua cidade.

Entre estas duas principais cidades da Província de Benguela, encontra-se a Vila da Catumbela. Fundada em 1835, no reinado de D. Maria II, banha-a o rio com o mesmo nome. Encantadora na sua simplicidade, porém guardando belas construções antigas.
Aproximadamente 30 anos após a sua fundação, surgiram as primeiras fazendas que lhe proporcionaram desenvolvimento, com a consequente prosperidade. Primeiro cultivou-se o algodão, posteriormente a cana-de-açúcar. Destacamos a Fazenda do Cassequel, importante fabricante de açúcar.
 

Dados extraídos do livro de Ralph Delgado, "O Reino de Benguela", 1941, bem como de outras fontes.

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